A imagem mostra uma participante do projeto Economia de Francisco na frente de uma paisagem com muita natureza para sugerir a presença da iniciativa no mundo

Em resumo

A Economia de Francisco é um movimento internacional inspirado pelo Papa Francisco que reúne jovens economistas para repensar o sistema econômico a partir das pessoas mais vulneráveis e do meio ambiente. A economista progressista Mariana Reis Maria, professora da Unicamp, integra a iniciativa desde o começo.


A economista progressista Mariana Reis Maria, doutora e professora da Unicamp, integra um movimento internacional que se propõe a repensar o sistema econômico: a Economia de Francisco. Inspirada pelo Papa Francisco, a iniciativa foi criada em 2019 e parte de uma ideia simples: colocar a economia a serviço dos mais vulneráveis e do meio ambiente.

A Economia de Francisco é um bom exemplo de como pautas de clima, desigualdade e nova economia se encontram em um mesmo debate. E Mariana é uma das vozes que ajudam a traduzir isso no Brasil. A seguir, explicamos o que é o movimento, de onde ele vem, o que significa “ecologia integral” e por que essa agenda conversa com uma economia mais justa e sustentável.

O que é a Economia de Francisco

É um movimento que propõe repensar a economia a partir de duas dimensões que o sistema atual costuma tratar como secundárias: o cuidado com os mais pobres e o cuidado com o meio ambiente. A inspiração vem de São Francisco de Assis, lembrado pela vida simples e pela relação próxima com a natureza.

A proposta parte de uma crítica direta ao modelo vigente: para o movimento, uma economia que se coloca a serviço de poucos e ignora os vulneráveis e o planeta precisa ser repensada. No lugar dela, a ideia é construir uma economia voltada ao que Francisco chamava de “casa comum”, isto é, o planeta que todos compartilhamos.

O que começou como um convite virou estrutura permanente. Hoje a iniciativa se organiza na Fundação Economia de Francisco (The Economy of Francesco – EoF), presidida pelo bispo de Assis, Domenico Sorrentino, e pelo economista Luigino Bruni.

Como tudo começou: do convite ao encontro presencial

O ponto de partida foi um convite aberto que o Papa Francisco fez a jovens economistas, ativistas e empresários do mundo todo, pedindo que ajudassem a repensar o sistema econômico, que ele julgava excludente e predatório.

A carta-convite foi divulgada em 1º de maio de 2019. Milhares de jovens responderam ao chamado. Em vez de criar um congresso tradicional de palestras, a organização dividiu os participantes e os debates em 12 “vilas” de trabalho, cobrindo pilares da nova economia como, por exemplo:

  • Trabalho e Cuidado
  • Gestão e Dom (Dádiva)
  • Finanças e Humanidade
  • Agricultura e Justiça
  • Energia e Pobreza
  • Políticas para a Felicidade

Essas “vilas” começaram a se reunir virtualmente muito antes do encontro presencial para diagnosticar problemas locais e globais e propor soluções baseadas em modelos alternativos (como a economia circular, economia solidária e o decrescimento sustentável).

O primeiro encontro presencial ocorreu em Assis, em setembro de 2022, quando o Papa assinou com cerca de mil jovens de aproximadamente 120 países um pacto por uma nova economia.

Para Mariana Reis Maria, a relação com Francisco é também pessoal. Ela conta que tudo começou na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, em 2013, quando ainda era estudante de graduação em economia. Foi ali que nasceu a conexão que, anos depois, a levaria a integrar o movimento.

O que é “ecologia integral”

É um dos conceitos centrais da Laudato Si’, encíclica publicada pelo Papa em 2015 e do movimento Economia de Francisco. A ideia é que não dá para separar a questão social da questão ambiental: são duas faces do mesmo problema.

Mariana resume essa visão com uma imagem que o próprio Papa usava: é preciso ouvir ao mesmo tempo “o clamor do pobre e o clamor do planeta”. Em outras palavras, combater a desigualdade e proteger o meio ambiente não são agendas concorrentes, mas caminham juntas.

Essa leitura tem efeitos práticos. Mariana lembra que a Laudato Si’ foi publicada no mesmo ano em que se negociava um novo acordo do clima. Segundo ela, muitos especialistas consideram que a pressão da encíclica ajudou a construir o consenso que levou ao Acordo de Paris, no qual mais de 190 países se comprometeram com metas de redução de emissões – depois de o Protocolo de Kyoto se mostrar insuficiente.

Mariana Reis Maria: a economista progressista que faz parte do movimento

Mariana Reis Maria é professora doutora na Universidade Estadual de Campinas. (Unicamp),  com período sanduíche na Scuola Superiore Sant’Anna di Studi Universitari e Perfezionamento, Pisa, com financiamento CAPES-PrINT. 

A economista é pesquisadora do Grupo de Estudos em Macroeconomia Aplicada (GEMAP) e do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT).  Tem experiência na área de Economia Industrial e Inovação e Economia Ecológica, trabalhando com financiamento às energias renováveis para transição energética de baixo-carbono por meio da Economia da Complexidade. É também membro da Sociedade Internacional de Economia Ecológica. 

Por que a Economia de Francisco conversa com a agenda da NoVE

A Economia de Francisco toca em temas que estão no centro do debate que a NoVE busca qualificar: uma economia centrada na sustentabilidade e na equidade social.

A ponte mais direta é com a transição justa, a ideia de que a mudança rumo a uma economia de baixo carbono precisa proteger trabalhadores e comunidades, sem deixar ninguém para trás. É exatamente a leitura da “ecologia integral”: clima e desigualdade tratados como um mesmo desafio.

Uma ressalva: o movimento tem origem religiosa e fala a partir de valores cristãos. A NoVE é independente e sem filiação partidária ou religiosa. O que interessa aqui é a substância econômica da proposta: repensar para quem e para quê serve a economia e o fato de que economistas progressistas brasileiras, como Mariana, levam esse debate para dentro da universidade e da política pública.

O que muda depois de Francisco

Com a morte do Papa Francisco, em abril de 2025, o movimento perdeu, nas palavras de Mariana, sua “voz mais ecoante”. Ela reconhece que o momento é desafiador: vários governos têm caminhado na direção oposta a de um pensamento econômico integrado.

Ainda assim, Mariana avalia que a iniciativa segue viva pelas ações espalhadas pelo mundo:  nas comunidades, nas periferias e até inspirando governos. Para ela, o papel de Francisco não se resume ao que ele dizia, mas ao que mobilizou: uma rede de jovens economistas disposta a continuar o trabalho.


Perguntas frequentes

O que é a economia de Francisco?

É um movimento internacional, inspirado pelo Papa Francisco, que reúne jovens economistas, empreendedores e ativistas para repensar o sistema econômico a partir das pessoas mais vulneráveis e do meio ambiente.

Por que o Papa Francisco se envolveu com economia?

Para o Papa, o modelo econômico dominante deixava de lado os pobres e o planeta. Em 2019, ele convidou jovens do mundo todo a ajudar a construir uma economia mais justa e sustentável, na linha da encíclica Laudato Si’ (2015).

Quem é Mariana Reis Maria?

É doutora e professora de economia da Unicamp e pesquisadora da Economia de Francisco. Economista progressista, integra a rede de especialistas da NoVE e participa de projetos em comunidades e periferias, inclusive em Manaus.

O que é ecologia integral?

É a ideia de que questão social e questão ambiental não se separam: combater a desigualdade e proteger o meio ambiente são partes do mesmo desafio — ouvir, ao mesmo tempo, “o clamor do pobre e o clamor do planeta”.

A Economia de Francisco continua depois da morte do Papa?

Sim. Segundo Mariana, o movimento segue ativo por meio de ações em comunidades e projetos pelo mundo, apesar de um cenário político mais difícil.

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