Em resumo

Pesquisa Ipsos para o GFNE com dois mil brasileiros mostra que a polarização política não se repete na economia. Maiorias de diferentes campos concordam em Estado forte, controle de preços e fim da escala 6×1. Em um teste direto, uma plataforma de economia progressista superou os discursos tradicionais de esquerda e de direita.



Uma pesquisa Ipsos encomendada pelo Global Fund for a New Economy (GFNE) ouviu dois mil brasileiros das classes ABC. O resultado desafia a polarização política: em temas centrais da economia, a maioria concorda, não importa o voto.

A proposta de um Estado forte, guiando o crescimento, é defendida por 47% dos entrevistados. O apoio é quase idêntico entre quem aprova (50%) e quem desaprova (46%) o governo Lula. Entre os ouvidos, 59% querem o Estado no controle de empresas estratégicas; 66% querem o governo controlando o preço dos combustíveis; e 73% apoiam o fim da escala de trabalho 6×1 (apoio que se mantém em 54% até entre quem votou contra o PT nas duas últimas eleições).

O achado mais forte, porém, vem de um experimento. Testada contra a mesma agenda de direita, uma plataforma de economia progressista venceu por 59% a 27%. Ela propõe taxar grandes fortunas, controlar preços abusivos e reconhecer o trabalho de cuidado. É uma vantagem mais de quatro vezes maior que a obtida por um discurso tradicional de esquerda na mesma comparação (46% a 39%). A polarização é esperada. A convergência, não.

O que a pesquisa Ipsos GFNE mediu

A pesquisa “Percepções sobre a Economia Brasileira” foi feita pela Ipsos para o GFNE. O levantamento ocorreu entre 22 de junho e 16 de julho de 2026. Ouviu 2.000 brasileiros de 18 anos ou mais, das classes ABC, em todas as regiões do país. A coleta foi por painel online, ponderada pelos dados oficiais do IBGE/PNAD.

Para analisar as respostas, o estudo usa dois recortes. O primeiro separa quem aprova e quem desaprova o governo Lula. O segundo classifica o comportamento eleitoral: quem votou consistentemente a favor do PT em 2018 e 2022, quem votou consistentemente contra, e quem alternou entre os dois campos. Este último grupo, os inconsistentes, é hoje o maior da amostra: 836 dos 2.000 respondentes.

Os dois recortes medem coisas diferentes. Ainda assim, chegam à mesma conclusão nos temas centrais: convergência alta em economia, divergência concentrada em poucos pontos fiscais.

Temas em que a maioria concorda

Quatro temas reúnem apoio majoritário nos dois recortes da pesquisa.

Papel do Estado: 47% concordam que o Brasil precisa de um governo forte guiando o crescimento econômico de longo prazo. O apoio é quase idêntico entre quem aprova (50%) e quem desaprova (46%) o governo.

Empresas estratégicas: 59% defendem que o Estado mantenha o controle de empresas como a Petrobras, contra 22% favoráveis à privatização.

Preço dos combustíveis: 66% quer que o governo controle os preços para mantê-los estáveis e acessíveis, contra 20% que prefere acompanhar o mercado internacional.

Fim da escala 6×1: 73% apoia acabar com a jornada de seis dias de trabalho por um de descanso. Entre quem aprova o governo, o apoio chega a 92%; entre quem desaprova, ainda é maioria, 60%.

Há convergência semelhante sobre juros. 65% atribuem às taxas de juros altas a razão pela qual muitas famílias não conseguem quitar suas dívidas. E 43% acham que o governo deveria poder pressionar o Banco Central a reduzi-las, opinião compartilhada, em proporções parecidas, por quem aprova e por quem desaprova o governo.

O discurso de economia progressista supera esquerda e direita tradicionais

O resultado mais forte da pesquisa vem de um experimento. Duas amostras de 1.000 entrevistados cada foram escolhidas aleatoriamente. Para a primeira, uma plataforma de centro-esquerda tradicional foi testada contra uma agenda genérica de direita. A esquerda propunha salário mínimo, Bolsa Família e Estado como motor do crescimento. A direita propunha corte de impostos, privatizações e livre mercado. A esquerda venceu por 46% a 39%, uma vantagem de sete pontos percentuais.

Para a segunda amostra, a mesma agenda de direita foi testada contra uma plataforma de economia progressista. Essa plataforma propõe taxar grandes fortunas, combater a alta abusiva de preços em setores essenciais e reconhecer o trabalho de cuidado, com direitos para trabalhadores informais e de aplicativos. O placar foi 59% a 27%: uma vantagem de 32 pontos, mais de quatro vezes maior que a obtida pela esquerda tradicional na mesma comparação. A diferença é estatisticamente significativa (teste Z para duas proporções, Z=-5,82).

O ganho da plataforma de economia progressista vem principalmente de dois grupos: quem desaprova o governo Lula e quem votou de forma inconsistente nas duas últimas eleições. Não é, portanto, um resultado restrito a quem já vota à esquerda. Entre os eleitores inconsistentes, considerados o grupo decisivo pela pesquisa, o apoio à proposta de esquerda tradicional é de 49%. À proposta de economia progressista, esse apoio sobe para 63%.

Para Pedro Rossi, economista-chefe do GFNE e parte da rede de especialistas da NoVE, a pesquisa é “extremamente rica e reveladora, ao mostrar que alguns temas escapam à polarização política e que o brasileiro pode combinar posições progressistas na economia com uma surpreendente abertura a novas ideias”.

A polarização resiste

Nem tudo converge. O teto de gastos públicos divide a opinião quase ao meio: 43% preferem limites mais flexíveis, para permitir investimento em saúde e educação; 40% preferem limites rígidos, para conter a dívida.

A taxação de grandes fortunas também separa os campos, mesmo com maioria favorável no total: 53% a favor de taxar para financiar investimentos públicos, 27% contra. Entre quem votou consistentemente a favor do PT, o apoio chega a 79-80%. Entre quem votou consistentemente contra, cai para 31-37%.

Esses são os pontos onde a divisão política era esperada. Questões redistributivas e fiscais tendem a acompanhar o espectro político em quase todo lugar. O que a pesquisa mostra de novo não é essa divergência, e sim o tamanho da convergência ao lado dela.

Por que a vida pessoal parece melhor que a do país

A pesquisa também mediu como os brasileiros avaliam a própria situação financeira e a do país. E encontrou uma distância entre as duas: 42% avaliam a própria situação financeira de forma positiva; mas a mesma proporção, 42%, avalia a economia do Brasil de forma negativa.

A renda pesa mais na avaliação pessoal do que na avaliação do país. Entre quem ganha mais de cinco salários mínimos, 78% avaliam bem sua própria situação, contra 31% de quem ganha até um salário mínimo. Já a avaliação da economia do Brasil varia menos por renda: de 42% a 29%.

A diferença mais forte aparece na aprovação ao governo. A economia do Brasil é bem avaliada por 59% de quem aprova o governo Lula. Entre quem desaprova, apenas 14% avalia bem. O custo de vida (63%), os impostos (57%) e a renda insuficiente (47%) puxam a avaliação para baixo. Programas de governo (33%) e oportunidades de emprego (28%) puxam para cima.

Para Marco Antônio Rocha, diretor-executivo do laboratório de pesquisa Transforma Economia/Unicamp e também ligado à rede da NoVE, o resultado “mostra que parte do eleitorado brasileiro tem se aproximado de uma visão política que também vem mobilizando eleitores em outros países”, que entende que o sistema econômico “tem se tornado cada vez mais disfuncional e excludente”.


Perguntas frequentes

O que a pesquisa Ipsos GFNE sobre economia mediu? A Ipsos entrevistou dois mil brasileiros das classes ABC, entre 22 de junho e 16 de julho de 2026, a pedido do Global Fund for a New Economy (GFNE), sobre percepções da economia brasileira, apoio a políticas públicas e preferência entre plataformas partidárias.

Existe consenso econômico entre quem aprova e quem desaprova o governo Lula? Sim, em vários temas. Estado forte guiando o crescimento, controle de empresas estratégicas, controle do preço de combustíveis e fim da escala 6×1 têm apoio majoritário tanto entre quem aprova quanto entre quem desaprova o governo.

O que é a plataforma de “economia progressista” testada na pesquisa? É um conjunto de propostas que inclui taxar grandes fortunas, combater a alta abusiva de preços em setores essenciais e reconhecer o trabalho de cuidado, com direitos para trabalhadores informais e de aplicativos.

Por que a plataforma de economia progressista teve mais apoio que a esquerda tradicional? No experimento da pesquisa, quando comparada à mesma agenda de direita, ela venceu por 32 pontos percentuais, contra 7 pontos da plataforma de esquerda tradicional na mesma comparação. O resultado é estatisticamente significativo e mais forte entre quem desaprova o governo e entre eleitores que alternaram o voto nas últimas eleições.

Em que temas econômicos os brasileiros continuam divididos? O teto de gastos públicos e a taxação de grandes fortunas seguem sendo pontos de divergência entre diferentes perfis políticos, embora a taxação tenha maioria de apoio no total da amostra.

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