Um infográfico em tons de azul e laranja mostra os dados da pesquisa que sustenta que a jornada feminina pode ser considerada um 7x0

Em resumo

Pela lente da economia de gênero, a jornada real das mulheres brasileiras vai muito além do trabalho pago. Somando o cuidado não remunerado, elas trabalham em média 58,1 horas por semana – contra 50,3 dos homens. É uma escala 7×0: todos os dias, sem folga. Enquanto o país debate o fim do 6×1, as brasileiras não têm um dia de descanso.


Enquanto o país debate o fim da escala 6×1, a jornada real das mulheres no Brasil pode ser vista como uma escala 7×0. Quando se soma o trabalho remunerado ao tempo dedicado ao cuidado não remunerado, a conta mostra mulheres trabalhando todos os dias da semana, sem um único dia de folga. Essa é a leitura proposta por uma nota de política econômica do Made/FEA-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades), um dos centros que integram a rede de especialistas da NoVE. O texto é assinado pelas pesquisadoras Clara Mendonça Saliba, Luiza Nassif Pires, Débora Machado Nunes e Laís Assenço Paulino. 

O ponto de partida é o debate sobre o fim da escala 6×1, em que se trabalha seis dias para folgar um. A nota acrescenta uma pergunta a essa discussão: e quando contamos as horas que não aparecem no contracheque? No caso,  as ocupações não remuneradas incluem cozinhar, limpar, cuidar de crianças, de pessoas idosas e de pessoas com deficiência, entre outros serviços. Somando tudo, as mulheres cumprem em média 58,1 horas semanais, ante 50,3 horas dos homens. A diferença não está no trabalho pago – em que a jornada delas é até menor -, mas nas horas de cuidado, invisíveis nas estatísticas e decisivas na vida real. Essa é uma das questões centrais da economia de gênero – o campo que estuda como as desigualdades entre homens e mulheres aparecem na renda, no trabalho e no uso do tempo.

O que é a escala 7×0 e o que ela tem a ver com o fim da 6×1

Nos últimos meses, a jornada de trabalho voltou ao centro do debate político e econômico brasileiro. A proposta de acabar com a escala 6×1 (seis dias de trabalho e apenas um de descanso, dentro das 44 horas semanais previstas na CLT) caminha junto com a discussão sobre reduzir a jornada máxima para 40 ou 36 horas. Duas propostas de emenda à Constituição, as PECs 8/2025 e 221/2019, tratam do tema no Congresso.

A escala 7×0 entra como um espelho dessa conversa. Se a jornada total de uma mulher chega a 58,1 horas por semana, isso equivale a trabalhar cerca de 8,3 horas por dia, todos os sete dias, sem folga. Enquanto o debate público discute como sair do 6×1 para um 5×2 ou um 4×3, boa parte das mulheres já vive, na prática, uma jornada que não prevê descanso semanal – só que parte dela não é remunerada e, por isso, não é contada.

Quanto as mulheres realmente trabalham

A nota estima a jornada real a partir dos dados da PNAD Contínua de 2019, em uma versão corrigida (Wajnman et al., 2026) que busca reduzir a subestimação do tempo de cuidado. O resultado se inverte quando saímos do contracheque e olhamos para o dia inteiro:

Jornada remuneradaCuidado não remuneradoJornada total
Mulheres36,7h21,3h58,1h
Homens41,4h8,8h50,3h

Médias semanais, em horas, para pessoas ocupadas. Fonte: nota do Made/FEA-USP, com dados da PNADc 2019 corrigidos por Wajnman et al. (2026).

No trabalho pago, a jornada das mulheres é menor (36,7h contra 41,4h). É no trabalho não remunerado que a conta vira: elas dedicam 21,3 horas por semana ao cuidado, mais do que o dobro das 8,8 horas dos homens. A diferença é de 12,5 horas, o equivalente a um dia e meio a mais de trabalho por semana, sem qualquer pagamento.

A nota das pesquisadoras separa esse tempo em duas formas de cuidado. O cuidado direto é o contato face a face: dar banho, alimentar, ajudar alguém a se locomover. O cuidado indireto é a manutenção da casa que sustenta esse cuidado: preparar refeições, limpar, administrar a rotina. Numa semana de trabalho típica, de segunda a sexta, somar as duas pontas leva as mulheres a uma jornada diária de 11,6 horas, contra 10 horas dos homens.

Trabalho invisível: o que a economia de gênero revela

O cuidado não remunerado sustenta a vida em sociedade, mas não aparece nas estatísticas oficiais. O Brasil tem poucos dados sistemáticos sobre uso do tempo, o que ajuda a apagar boa parte do cotidiano – sobretudo o das mulheres. É essa lacuna que a nota tenta preencher.

Por trás dos números há um padrão que a economia de gênero estuda há décadas: a divisão sexual do trabalho (Hirata e Kergoat, 2007), que historicamente coloca os homens na esfera do trabalho pago e as mulheres a cargo do cuidado, remunerado ou não. O fenômeno não é só brasileiro. Estimativas da ONU para 2023, citadas pela nota, indicam que, no mundo, as mulheres dedicam em média 4,3 horas por dia a trabalhos não remunerados, contra 1,6 hora dos homens.

Para transparência: as próprias autoras registram que esses dados têm caráter experimental e não são oficiais. A correção aplicada é, segundo elas, o retrato mais fiel disponível hoje, justamente na ausência de uma estatística pública mais precisa sobre uso do tempo.

A sobrecarga não é igual para todas: renda e raça

O dado mais importante talvez seja a persistência: a jornada feminina é mais alta em todos os recortes de renda e de jornada analisados. Entre quem trabalha 40 horas ou mais no mercado, por exemplo, as mulheres chegam a uma jornada total de 63,8 horas semanais – o equivalente a oito dias de trabalho numa semana que só tem sete. E mesmo as mulheres com a maior carga de trabalho pago ainda dedicam ao cuidado cerca de 10 horas a mais do que homens com a menor carga.

Quando a renda sobe, o tempo de cuidado das mulheres cai um pouco, mas essa redução é mais do que compensada pelo aumento da jornada remunerada. Ou seja, no topo da distribuição não há propriamente uma divisão mais equilibrada do trabalho doméstico: há transferência. E essa transferência costuma recair sobre outras mulheres, em especial mulheres negras, que respondem por 70% da força de trabalho doméstico e de cuidados no país (IPEA; Camarano et al., 2025) – e que, ao voltar para casa, ainda enfrentam a própria jornada dupla.

Reduzir a jornada resolve? Em parte

Para as autoras, acabar com o 6×1 e reduzir a jornada de trabalho é um avanço necessário, alinhado a uma tendência global. A escala 4×3 (quatro dias de trabalho, três de descanso) vem ganhando espaço: a Islândia, que começou a testá-la em 2015, registrou aumento de produtividade e ganhos de bem-estar (Haraldsson e Kellam, 2021). A Rede Brasileira de Economia Feminista (2024) acrescenta que jornadas menores podem abrir postos de trabalho e estimular a participação dos homens nas tarefas de casa.

Mas reduzir o tempo de trabalho pago não basta se o tempo “livre” das mulheres continuar sendo preenchido pelo cuidado. A nota defende que essa política caminhe junto com a corresponsabilização: o Estado, os homens e a sociedade dividindo a conta do cuidado. Essa é a aposta do Plano Brasil que Cuida, lançado em dezembro de 2025, que amplia creches e instituições de longa permanência para pessoas idosas. Sem isso, alerta o estudo, a sobrecarga continua, e com ela a chamada crise dos cuidados, cuja face mais visível é o envelhecimento da população.


Perguntas frequentes

O que é a escala 7×0?

É uma forma de descrever a jornada total das mulheres brasileiras quando se soma o trabalho remunerado ao cuidado não remunerado. Em média, dá 58,1 horas por semana, o equivalente a trabalhar todos os dias, sem folga.

O que é economia de gênero?

É o campo da economia que estuda como as diferenças e desigualdades entre homens e mulheres se refletem no trabalho, na renda e no uso do tempo. A escala 7×0 é um bom exemplo: mostra como o peso do cuidado recai de forma desigual sobre as mulheres.

Quanto as mulheres trabalham a mais do que os homens?

No total, 58,1 horas semanais contra 50,3 dos homens. A diferença vem do cuidado não remunerado: 21,3 horas das mulheres contra 8,8 dos homens (12,5 horas a mais por semana, ou cerca de um dia e meio de trabalho sem pagamento).

Por que esse trabalho não aparece nas estatísticas?

Porque o trabalho de cuidado não remunerado não é contabilizado nas estatísticas oficiais, e o Brasil tem poucos dados sobre uso do tempo. A nota usa uma base experimental, corrigida, para tentar medir o que normalmente fica invisível.

O fim da escala 6×1 resolve a sobrecarga das mulheres?

Ajuda, mas não resolve sozinho. Segundo o estudo, reduzir a jornada paga só alivia de fato a vida das mulheres se vier acompanhado de políticas de cuidado e de uma divisão mais justa dessas tarefas entre Estado, homens e sociedade.

De onde vêm esses números?

Da Nota de Política Econômica nº 85 do Made/FEA-USP (2026), que usa dados da PNAD Contínua de 2019 corrigidos por Wajnman et al. (2026).


Fonte e autoria

Texto da Equipe NoVE, a partir da pesquisa do Made/FEA-USP, centro que integra a rede de especialistas da NoVE. 

Referência: SALIBA, C.; NASSIF, L.; NUNES, D.; PAULINO, L. A. Escala 7×0: a jornada que não acaba para as mulheres brasileiras. São Paulo: Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/FEA-USP), 2026. (Nota de Política Econômica, n. 85).

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